domingo, 10 de abril de 2011

Nascer, viver, e no início de tudo, morrer.



"Eu acordei para mais um dia de aula, o sol já estava radiante lá fora. Levantei imediatamente da cama antes que a preguiça me devolvesse pro sono, e eu gostaria muito que isso tivesse ocorrido. Como de costume fui direto ao banho. Tirei meu pijama e entrei no box do chuveiro. A água morna me acordava aos poucos, eu fazia isso todo os dias, era como um ritual.
Após o banho eu penteava os meus cabelos e os prendia com muito capricho. Gostava de estar sempre bem arrumada. Após ajeitar meus cabelos escovava os meus dentes conforme a minha dentista sempre receitou: "movimentos circulares Larissa, de baixo pra cima, e não se esqueça de escovar bem a língua".
Após escovar meus dentes eu saí do banheiro envolvida na toalha e voltei pro meu quarto. Lá eu vesti a calça, em seguida a camiseta do uniforme da escola. Eu até tentei customizar a camiseta com vários botons, mas ainda assim eu torcia o nariz para aquela camiseta cinza e feia.
Eu fui até a penteadeira e passei um gloss de morango em meus lábios, peguei minha mochila jeans e fui até a cozinha. Já era 7:05 da manhã. Engoli um pedaço de bolo de fubá com leite e fui me despedir dos meus pais...

Tchau pai, tchau mãe, fiquem com Deus! falei abrindo a porta do quarto, bem devagarzinho.
Tchau querida, vai com Deus respondeu meu pai com voz de sono.
Larissa, tomou café da manhã? perguntou minha mãe se levantando da cama.
Sim mãe, o bolo de ontem respondi de imediato, antes que minha mãe pedisse pra eu comer uma banana.
Então tá. Boa aula filha, vá com Deus.
Amém.

Em seguida saí de casa, como eu queria ter ficado lá. Nem me despedi do meu lar, nem dei um beijo nos meus queridos pais. Eu segui pelo mesmo caminho, passando pelo comércio e em seguida pela praça, era um dia como qualquer outro. O sol estava radiante e era apenas mais um dia.
Cheguei à escola, cumprimentei o Seu Antônio, o porteiro, e me encontrei com as minhas amigas, a Bianca e a Vanessa. Estávamos conversando sobre o teste que teríamos amanhã, quando o sinal tocou, era 7:30 da manhã, aula dupla de português.
Me sentei como de costume na primeira carteira que ficava encostada na parede, Vanessa sentava sempre atrás de mim e a Bianca sentava sempre na outra coluna, na primeira carteira. Logo chegaram os demais alunos, Lucas, Pedro Augusto, Jonathan, Laura, Amanda...e enfim, todos se sentaram e conversavam naturalmente. Ríamos, conversávamos em alto e bom som como típicos adolescentes. Os meninos sempre infantis em demasia, jogavam papéis uns nos outros. Eu e minhas amigas falávamos do Rock in Rio empolgadas pela possibilidade de ver a Katy Perry ao vivo.

Porém no auge da euforia, fomos supreendidos...

Teste surpresa! Orações subordinadas adjetivas e adverbiais. Dois pontos, andem, guardem os materiais a professora Marta chegou na sala para infelicidade de todos.

Me endireitei na cadeira, guardei meus materias embaixo da carteira, olhei pra trás e revirei os olhos pra Vanessa, que bufou em resposta.
Era mais um teste da professora mais chata, difícil, longo e cheio de textos. Eu tentei me concentrar a todo custo, mas eu não conseguia responder a primeira questão. Algo me perturbava e eu não sabia o quê. Porém logo tudo viria à tona.
Faltavam apenas vinte minutos para as nove e eu ainda não estava na metade do teste. Apartir de agora o que eu irei descrever é algo que sinceramente não há palavras que descrevam, nada que possa exemplificar com total fidelidade. O que eu senti, o que eu vi e o que foi, são coisas surreais e não desejo a nenhum ser vivo.
Meu coração palpitava, minha mão suava e na sala tudo estava como sempre esteve. Marta pensando estar vigiando os alunos, os meninos do fundão colando na cara dura. De repente ouviu-se um estouro na sala vizinha e em seguida uma gritaria sem fim. Todos ficaram alarmados, segundos depois outro estouro e mais gritos. Marta levantou-se de imediato e eu me estiquei para ver o que acontecia.
Em pé no vão da porta se encontrava um homem vestido com calças sociais, uma camisa azul impecavelmente passada, uma bolsa pendurada em seu ombro e em sua mão direita uma arma, dessas pequenas e escuras. Então eu constatei que não eram estouros, eram TIROS. O homem deu mais disparos e os alunos começaram a sair em disparada pela porta. Foram uns 6 tiros na sala vizinha, muitos gritos e correria.
Os alunos da minha turma saíam em disparada pela porta, gritando e buscando a própria salvação, a professora Marta foi junto, desesperada, tropeçando em seus próprios pés. O assassino girou nos calcanhares e começou a disparar sobre o grupo de alunos que corriam pela porta da minha sala. Eu voltei pra sala, Bianca e Vanessa atrás de mim. Foram 4 disparos, e eu consegui ver o momento exato em que o assassino disparou na cabeça da professora Marta, que caiu com estrondo no chão. Um dos disparos atingiram o João Paulo no abdômen e outro acertou em cheio o pescoço de Ana Clara, eu vi pelo vidro da porta.
Eu não conseguia digerir aquelas imagens, minhas pernas tremiam, meu coração palpitava e os meus colegas de classe arrastavam carteiras em direção à porta. Eu não desprendia os olhos do vidro retangular e eu pude ver o assassino voltando à sala vizinha e disparando mais cinco vezes sobre alunos acuados sobre a parede. Ele mirava em suas cabeças, e eu vi ele mirando assustadoramente sobre a cabeça da Jéssica. Um grito e um disparo.
Na minha sala, estava uns 14 alunos, todos empurrando carteiras, mesas, tudo sobre a porta, e eu estava encima de uma carteira, olhando tudo muita atenta.

Sai daí Larrisa, você vai levar um tiro! gritou Bianca tentando se esconder atrás de uma carteira.

Eu estava em estado de choque, eu não conseguia fazer nada. Eu não piscava, eu não respirava. O assassino parou de atirar, recarregou a arma rapidamente e veio em direção a nossa sala. Foi aí que eu reagi e fui me juntar aos demais alunos no fundo da sala. O homem empurrou a porta, olhou sobre o vidro e nos viu no fundo da sala, deu um sorriso diabólico e forçou a porta. A medida que as carteiras iam se arrastando, os alunos gritavam. Bianca e Vanessa choravam desesperadamente e eu estava atônita, meus olhos saltando das órbitas.
O homem empurrou a porta a ponto de conseguir apontar a arma pela abertura. Foram 2 disparos e muita gritaria. Nós nos juntamos, alguns debaixo de carteiras, outros levantavam carteiras pra se proteger, e eu estava em pânico. Eu só queria que tudo aquilo fosse um sonho ruim. Não podia ser real. Eu tinha que estar sonhando...
O homem continuou forçando a porta quando o Félix e o Rodrigo tentaram arremessar uma cadeira sobre o homem. Uma cadeira chegou bem perto e outra levou um tiro ainda no ar. O homem continuou atirando loucamente sobre nós. As balas castigavam as paredes, assoalho, carteiras...

Uma bala acertou Maria Eduarda na bochecha, atravessando seu belo rosto. Outra bala perpassou a cabeça da Stella que tentou abaixar bem na hora, e mais uma bala atingiu o abdomên do Guilherme que gritava de desespero.
O homem conseguiu entrar na sala, estávamos sobre a parede, alguns agachados, outros em pé, todos gritando e chorando muito. Eu estava em prantos, meus olhos embaçados conseguiam distinguir uma figura demoníaca carregando a arma. Alguns alunos correram nesse momento em direção a porta. Fabíola, Rodrigo e o menor da sala, o João Pedro, escaparam enquanto o homem carregava o instrumento mais covarde que a humanidade inventou.

Pelo amor de Deus, não mata a gente gritou Henrique que se escondia debaixo da carteira - Pelo amor de Deus  — sua voz saindo em soluços.

Não há nada que explique a sensação de estar em uma situação como aquela. Estávamos todos juntos no fundo da sala. O homem não demonstrou comoção e apontou a arma para nós e recomeçou a chacina. Enquanto alguns eram atingidos, outros corriam em direção a porta. Eu via tudo em câmera lenta. Eu vi um tiro atingindo a Bianca enquanto corria para o lado oposto. Eu vi a Vanessa caindo após levar um tiro na perna. Minhas melhores amigas...
Havia sangue por todo lado, eu já não ouvia nada, eu via vultos, pessoas caindo, sangue pintando as paredes. Alguns eram abatidos correndo em direção às balas, outros enquanto rezavam. O homem recarregava arma e eu ouvia as balas zunindo, muitos caindo ao meu redor e eu em pé, lágrimas escorrendo em minha face e então eu senti uma sensação horrível, a convicção de estar prestes a morrer. Eu era a última vida inocente a ser dizimada.
Eu senti como se o meu corpo lutasse, eu senti cada parte do meu corpo reagindo, eu senti algo que nunca havia sentido nesses 13 anos de vida. Era a adrenalina dizendo que eu deveria fazer algo o mais rápido possível, mas só o que pude fazer , foi rezar com todas as minhas forças.

Meu Deus, me ajuda, por favor....me ajuda.

Eu vi o homem vindo em minha direção, lentamente, parava enquanto passava pelos corpos, mirava sobre as cabeças e atirava sem piedade. Eu continuei rezando baixinho.

Meu Deus me salva, por favor....POR FAVOR!

Em seguida eu ouvi um disparo, e não veio do monstro. Um policial havia atingido a perna do homem, que cambaleou. Eu estava olhando diretamente pra ele, em pé, intacta e assombrada. Quando eu vi em seus olhos uma maldade indescritível, eu senti medo, muito medo. E então eu vi tudo em câmera lenta de novo.
Eu ergui minhas mãos, para proteger o meu rosto. Outro disparo. O homem gritou. Eu continuei em pé com as mão erguidas na direção do meu rosto, quando uma bala atravessou minhas duas mãos e atingiu bem no meio da minha testa.
Eu ainda senti a dor, as minhas pupilas dilatando, e eu estava perdendo tudo o que eu fui. Eu sentia o fôlego de vida se esvaindo de dentro de mim. Eu consegui ainda me lembrar dos meus pais e do meu adorável lar. Eu tive a vida roubada e houve uma luta em minha mente, eu não queria morrer, eu não queria! Eu era tão jovem pra morrer. Eu só tinha treze anos...logo tudo começou a escurecer, e escurecer, e esc..."


O narrador sou eu agora, o Lorde Croowel. O último acontecimento, esse que assombra as mentes do Brasil inteiro, me foi inspiração pra essa postagem e é com muita dor e lágrimas nos olhos que eu imploro a Deus, para que todas aquelas crianças sejam lembradas no grande dia. Em um dia, todas elas voltarão. Porque ter a vida interrompida daquela forma, não é justo, não pode ser justo.